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Mário Fascio – Presidente da XXXIII Jornada Norte-Nordeste de Anestesiologia

O médico anestesiologista Mário Fascio presidiu a XXXIII Jornada Norte-Nordeste de Anestesiologia, que aconteceu em Belém, paralelamente à V Jornada Norte-Nordeste de Dor e ao II Fórum Norte-Nordeste de Cooperativismo. Em meio às várias atividades do evento, Fascio, que preside a Sociedade de Anestesiologia do Estado do Pará, falou ao jornalista Sérgio Augusto sobre os desafios enfrentados pelo profissional da área. Abaixo, alguns trechos da entrevista:  

1 – Qual o maior desafio do anestesiologista na nossa região?

MF – Primeiro, e não necessariamente nessa ordem, os baixos salários. Prova disso é que, dos 143 municípios do Pará, temos anestesiologista em apenas 23 deles. Os outros municípios não têm porque não há condições de trabalho e estrutura física, o que seria o segundo desafio. Não adianta colocar o anestesista no município se não há hospital em condições de atender a população. Um fator, então, depende do outro: sem hospital, não se pode contratar o anestesista.

2 – Qual a média salarial do anestesiologista no Pará? 

MF - No interior do Pará, os anestesistas ganham um pouco mais. Pelo Estado, o salário seria menos de R$ 3.000. Se você pegar o salário de um anestesista na capital, vai ver que não chega a R$ 1.500. Por outro lado, a Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas no Estado do Pará está conseguindo contratos fabulosos com as prefeituras e o próprio Estado, nos hospitais regionais e com as próprias organizações que gerenciam esses hospitais. Em Santarém, por exemplo, pagam ao anestesista R$ 2.000 por dia. Mas, incrivelmente, ainda não se conseguiu ninguém que queira morar lá. O que a Cooperativa é obrigada a fazer?mandar um anestesista a cada semana, ou a cada dez dias ele retorna a Belém. Nossa formação é algo que eu diria até atávica, porque você vê no sul do país cidades muito menores que Santarém e com equipes completas de anestesistas, enquanto aqui não se consegue isso. Antigamente os anestesistas sofreram muito porque faziam contrato direto com as prefeituras. E essas, depois de três, quatro meses deixavam de cumprir as obrigações contratuais, principalmente o pagamento, levando então os outros anestesistas a não quererem mais ir até lá. Como agora temos a Cooperativa, essa segurança aumentou e o profissional vai a “peso de ouro”. Um dia a mão-de-obra vai começar a exceder os limites de Belém e os colegas vão começar a procurar o interior. Se hoje em dia eles ganham R$ 3.000 de salário, somando a parte privada, eu lhe diria que a média dos anestesistas daqui estaria em torno de R$ 10.000 a R$ 12.000, o que é um bom ganho. Mas, em compensação, tem que trabalhar muito, porque mesmo com a compensação que o SUS dá, através da Cooperativa, os preços são muito baixos, irrisórios, e posso lhe dizer que são pagos pelos planos de saúde. Você só tem o maior ganho se tiver maior produção, não numa relação direta. Você talvez tenha que trabalhar três vezes mais para ganhar o que ganharia trabalhando uma vez e meia.

3 – Dr. Fascio, esse quadro chega a ser um paradoxo, pois se por um lado os salários são baixos e as condições de trabalho são precárias, por outro temos aqui alguns dos melhores profissionais da anestesiologia no Brasil. 

MF – É verdade. A anestesiologia é uma profissão desafiadora a que me dedico há 44 anos. Tem um trabalho muito importante numa revista estrangeira dizendo que as duas especialidades médicas que tiveram o maior avanço nos últimos 20 anos foram a cardiologia e a anestesiologia. De modo inconsciente, isso talvez seja um desafio e um atrativo para o exercício da profissão e da especialidade.

4 – Dr. Fascio, vivemos atualmente um momento especialmente delicado na saúde pública. Enquanto médico, qual a sua visão a respeito desse problema? 

MF – Sem querer tomar partido, esse problema não é só nosso. Eu conheço o Brasil todo e posso dizer que é um problema nacional. Você vê que a mídia vai pegando os casos de cada estado e percebe que a saúde está relegada não diria ao segundo plano, mas ao terceiro ou quarto. É uma visão que não sei se seria cultural. Vejo planos para que Copa do Mundo e Jogos Olímpicos sejam realizados no Brasil e investimentos que ultrapassam a casa do bilhão de dólares para a sua realização. Porque não fazem o investimento sem a Copa do Mundo? Serão construídos viadutos, melhorados os hospitais, etc, etc, etc. Vou lhe dar um exemplo prático, aqui de Belém do Pará: Hospital Ophir Loyola, dedicado a tratar do câncer. Primeiro, não atende só pacientes com câncer e já desvia de sua função principal para outros programas. São também importantes, mas para mim não são prioridades. Com todo o respeito que merece um paciente de obesidade mórbida, eu acho que quem está com um tumor cerebral merece esta prioridade. Outra coisa: o número de leitos é o mesmo há 30 anos. Enquanto isso temos um “Mangueirão” (Estádio Olímpico do Pará), temos uma Estação das Docas e etc. Não sou contra o “Mangueirão” ou a Estação das Docas, mas esses projetos, a meu ver, não são prioridades. Quanto se gastou nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007?e a saúde?quando eu era acadêmico, fui plantonista do Pronto Socorro Municipal de Belém. A unidade continua no mesmo lugar, e hoje está até muito pior, pois houve o avanço da parte tecnológica e o atendimento não evoluiu. Não pode um hospital de primeiro atendimento, principalmente de trauma, sem um equipamento de ressonância magnética, sem um aparelho de tomografia, sem um suporte cirúrgico adequado. Para você ter uma idéia, lá no PSM continuam funcionando apenas duas salas de cirurgia. Você vê que isso é uma questão de gestão, acho que cultural. Os nossos políticos não me parecem tão ativos nessa parte; a própria mídia só coloca aquilo que está acontecendo naquele momento, depois não fala mais a respeito dos problemas. Até seria interessante fazer um apelo diretamente às autoridades, para mostrar a importância da saúde pública na sociedade.  

5 – Durante os três dias de realização da Jornada, qual a grande questão apresentada pelos participantes?

MF – Foi unanimidade: querem novidades, seja na parte técnica, seja na parte de medicamentos, etc. Houve um avanço, mas um avanço caro em nossa especialidade. As drogas são caras, os equipamentos também. Um aparelho auxiliar para fazer bloqueio de nervo periférico custa R$ 100.000. O sensor, que é a parte do aparelho que entra em contato com o paciente para localizar o nervo, custa R$ 10.000. Se o sensor, que é uma fibra ótica, escapar da sua mão e cair no chão, você está jogando fora, no mínimo, metade do valor de um carro zero quilômetro popular. Para ganhar esse valor na parte privada, será quase que um mês de trabalho só para aquilo, não tendo mais nenhuma despesa. Então às vezes fica até um pouco frustrante: você conhece o equipamento mas não pode tê-lo em mãos. É como você sonhar com uma Ferrari e ter que se contentar em andar de “fusquinha”.

 
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